Programação da I Mostra Brasil

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PROGRAMAÇÃO

Gastronomia, danças e expressões artísticas – entre elas o artesanato, a fotografia e a música – fazem parte desta mostra que propõe ainda trocas culturais num ambiente de desenvolvimento e aprendizado e que convida ao debate, não deixando de lado as questões mais fraturantes da relação entre Brasil e Portugal.

03/09 – quinta-feira
21h – Abertura
Leitura da Carta de Pero Vaz de Caminha, pela companhia de teatro Público Reservado com
projeção de fotografias das Nações Indígenas do Nordeste Brasileiro, da fotógrafa portuguesa Ângela Ferreira.

21h45 – Colóquio Sob o signo de Guimarães Rosa: “Os Brasis: relatos de portugueses em suas viagens e ideias de Brasil”

“Felicidade se acha e em horinhas de descuido”
Intervenientes:
Nuno Cardoso, Mestre em História, Relações Internacionais e Cooperação pela Universidade do Porto, Autor do livro “A Relação Euro-Mediterrânica e a Primavera Árabe”;
José Louraço, docente da ESMAE, crítico (Público) e doutorando na Universidade de Coimbra. Autor de peças como Cassandra de Balaclava, entre outras, publicou Verás que Tudo É Verdade, livro sobre o grupo Folias (SP);
Jorge Oliveira, Doutor em psicologia pela Universidade Fernando Pessoa, presidente e fundador do Espaço T (Porto);
Jorge Palinhos, teatrólogo, escritor, é autor de peças de teatro e guiões apresentados em vários países, é docente do ensino superior para as áreas de drama e jogos.

04/09 – sexta-feira
18h – Fotografia e Artes Plásticas
Inauguração da exposição coletiva “Terra Brasil”.
Fotógrafos Brasileiros: António Carlos Espilotro, Armando CR , Daniela Gama, Dayene Mari, Elcimar Rocha – Careca Roots, Felipe Blanco, Herval Moura, Lara Lins, Lara Queiroz, Sinisia Coni. Artistas Plásticos: Carlos Antunes -PT, Margarida António -PT, Paulo Palha – PT, Viviane Morresi -BR. Curadoria: Atlas Violeta

21h30 – Audiovisual – Exibição do documentário “Asilo – O Poder dos Índios Potiguara”, de José Manuel Simões. Escritor, Doutor em Estudos Globais, Mestre em Comunicação e Mídia, Coordenador do Departamento de Comunicação & Estudos de Mídia e Professor Assistente da Universidade de São José (Macau).

05/09 – sábado
15h às 16h30h – workshop “Produção de Cogumelos em Borra de Café”, com o objetivo de proporcionar conhecimento teórico e prático sobre o cultivo caseiro de cogumelos, com Sara Barbosa, licenciada em Eng.ª das Ciências Agrárias e Mestre em Ecologia, Ambiente e Território pela FCUP.

15h – 17h – Oficina de dança para crianças (6 aos 12 anos), com Flávio Rodrigues. Esta oficina tem como princípios exploratórios a improvisação e a composição coreográfica. Flávio Rodrigues é formado em Dança pelo Ginasiano (1996), Balleteatro Escola Profissional (2003), Dance Works Rotterdam (2005) e pelo Núcleo de Experimentação coreográfica (2008). Coordena o Serviço Educativo Balleteatro desde 2013 onde também é docente convidado.

15h30 – 17h30- “Ler é uma lenda” oficina de escrita criativa com Renata Portas. Tentemos, neste curto espaço-tempo, engravidar de palavras, algumas folhas, e plantá-las em bocas de imaginários atores. Renata Portas é encenadora, atriz e dramaturga. Diretora artística da Público Reservado, companhia teatral fundada em 2013.


15h e às 19h – I Mostra Gastronómica O Tempero da Baiana – Homenagem a memória de Marina Santos. Organização: Código Simbólico.
15h às 19h – Feira gastronómica e de produtos artesanais


17h – Colóquio Sob o signo de signo de Herbert José de Sousa (Betinho): “Fluxos Migratórios e Integração: relatos e conversas”

é preciso olhar a propriedade da terracom o olhar da democracia,com o olhar da vida, e não com o olhar da cobiça, da cerca, da violência”

Intervenientes:
Graça Borges Castanho, Docente com formação nas áreas da Educação, Ensino de Línguas, Questões de Género e Interculturalidade, Pós-Doutorada em Harvard, Doutorada pela Universidade do Minho, é candidata independente à Presidência da República Portuguesa /2016;
Rita Romão, é Diretora Técnica do Lar Velhos Tempos. Licenciada em Serviço Social, desenvolve trabalho como assistente social nos ISS do Porto e Vila Real, nos Aces Baixo Tâmega, Centro Saúde Marco Canaveses e Gondomar;
Carla Machado; Licenciada em Psicologia;
Renata Silveira, Consultora de Imagem e Comunicação, Licenciada em Jornalismo, Mestranda em Design da Imagem pela FBAUP, é presidente do Conselho Fiscal da Código Sibólico.

06/09 – domingo
16h – Show da Independência – Batucada Radical e artistas convidados: Aldir, Aide Queiroz, Denise Machado, Edy Menezes, Ilen Monteiro, Fabinho do Cavaco, Marcus, Lilian Raquel, Luca Argel, Felipe Vargas, Rodrigo Mariazi, Tubarão, Will Souto, Abadá Capoeira e Cinco Cantos do Brasil.

A I Mostra Brasil é uma realização da Atlas Violeta, Batucada Radical, Cinco Cantos do Brasil, Código Simbólico e Público Reservado, associações luso-brasileiras sediadas no norte de Portugal, com o apoio institucional da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e do Consulado Geral do Brasil no Porto.

I MOSTRA BRASIL
03 a 06 de Setembro de 2015
Convento Corpus Chirstus –
Largo de Aljubarrota, 13, Vila Nova de Gaia
(próximo ao Cais de Gaia)

Thais Matarazzo e o Porto na Feira do Livro de Aveiro

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“O Porto e eu…” é um livro de crônicas, marcando a estreia da autora neste gênero literário. A obra traz dez crônicas acerca das suas principais impressões sobre a “Cidade Invicta”. Com ilustrações, descrições de suas viagens e curiosidades, a obra conta com prefácio do “Príncipe dos Poetas Brasileiros” (Paulo Bomfim)

Neste domingo, pelas 15h, a escritora e historiadora brasileira Thaís Matarazzo apresenta os seus livros “O Porto e eu”, “O fado que cantei e outras canções”, “O fado nas noites paulistanas” e “O Rio e eu: crônicas de uma paulistana” na 40ª Feira do Livro de Aveiro.

Thais Matarazzo já teve alguns de seus livros lançados em Portugal. Em outubro de 2013, apresentou “Fado no Brasil: Artistas & Memórias” no “Congresso da Mulher Migrante”, organizado pela Dra. Manuela Aguiar e Dra. Rita Gomes, em Lisboa; em agosto de 2014, lançou o livro “A Rapaziada do Brás: seus artistas, memórias e canções” (coleção Pró-TV, In House editora), no Porto, num evento organizado pela Código Simbólico. No passado mês de fevereiro, apresentou o livro “Brasil e Portugal: teatro, música, artistas e tal” no II Ciclo de Conferências Luso-Brasileiro sobre Teatro de Revista, com organização do professor Jorge Trigo, na Biblioteca São Lazáro, em Lisboa.

Depois, no dia 21 de junho, às 17 horas, os livros de Thais Matarazzo serão apresentados no “Mural do Poeta”, no Porto.

As Portas da Candelária

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No âmbito da rubrica Porto de Cá, Porto de Lá, que estabelece uma ligação entre culturas, histórias e saberes entre Portugal e outras comunidades em volta do mundo, a Código Simbólico e a Câmara Municipal de Gaia, convidam para o evento “A Candelária de Teixeira Lopes”, que terá lugar no próximo dia 30 de maio, às 14h30, na Casa Museu Teixeira Lopes, em Vila Nova de Gaia.

Abrindo a programação, o pianista portuense Miguel Braga fará uma homenagem à Cidade Maravilhosa, com a expressão máxima do espírito do Rio: a Bossa Nova. A apresentação decorre no Salão Nobre da Casa Museu Teixeira Lopes, num palco por onde passaram grandes nomes da música, como a violoncelista Guilhermina Suggia.

São palestrantes o Vereador do Pelouro da Cultura, Delfim Sousa, – As Portas da Candelária – e o Embaixador Gelson Fonseca Junior, Cônsul-Geral do Brasil no Porto, que falará sobre a cidade que já foi sede do Império e da República Brasileira. O encontro em volta da história, da arquitetura e da influência da cultura portuguesa no Rio de Janeiro, conta com a moderação do Exmo. Presidente da Câmara Municipal Eduardo Rodrigues.

A programação, que está inserida nas comemorações dos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro e pretende reafirmar as pontes entre o distrito do Porto e a Cidade Maravilhosa, encerra em ritmo de samba com grupo de percussão Batucada Radical, que se apresenta nos jardins da Casa Museu Teixeira Lopes.

Neste dia, é possível ainda aos convidados visitarem o museu e o atelier do escultor António Teixeira Lopes e conhecer um pouco mais da sua obra.

A CANDELÁRIA DE TEIXEIRA LOPES
PALESTRANTES: DELFIM SOUSA E GELSON FONSECA JUNIOR
MÚSICA: MIGUEL BRAGA E BATUCADA RADICAL
ENTRADA LIVRE E GRATUITA
30 DE MAIO DE 2015 | 14H30
CASA MUSEU TEIXEIRA LOPES,
Rua Teixeira Lopes 32, VILA NOVA DE GAIA

REALIZAÇÃO: CÓDIGO SIMBOLICO
APOIO: CAMARA MUNICIPAL VILA NOVA DE GAIA, BATUCADA RADICAL,
SEGAFREDO, MAMMA MIA RESTAURANTE, PÚBLICO RESERVADO,
B STUDIO DESIGN, RIO 450 ANOS.

Código Internacional – Mare Nostrum

Novo artigo de opinião de Nuno Cardoso, na coluna Código Internacional, sobre as tragédias no Mediterrâneo – Mare Nostrum.

“Não há maior sinal de alerta do que uma vida perdida. E os milhares de gritos afogados pelo Mediterrâneo são um preocupante sinal de alerta que poucos estão dispostos a ouvir. Pode parecer cruel, ou até simplista, mas o principal motivo pelo qual continua a morrer tanta gente no mar do Mediterrâneo, naquela travessia em busca de um futuro melhor, é porque existe, do lado europeu, pouca vontade política para resolver o problema.”

Consulte o artigo completo na coluna Código Internacional.

A Comunicação para o Desenvolvimento e o resgate da cidadania

Clara Pugnaloni*

Existe a necessidade de uma comunicação que permita as comunidades possuir voz própria e participarem progressivamente das decisões sobre seu desenvolvimento e sua vida. Esta comunicação é chamada de Comunicação para o Desenvolvimento (CpD). Como evidenciou Nelson Mandela, são as pessoas que fazem a diferença. Comunicação é sobre pessoas. Comunicação para o Desenvolvimento é essencial para fazer a diferença acontecer. A Comunicação para o Desenvolvimento é um processo que permite às comunidades falar, expressar suas aspirações e preocupações e participar nas decisões que dizem respeito ao seu desenvolvimento (Assembleia Geral da ONU, resolução 51/172, artigo 6).

Essa definição contrasta profundamente com a tendência de associar a palavra comunicação com conceitos como disseminação, informação, mensagem, mídia e persuasão. A Comunicação para o Desenvolvimento engloba esses conceitos e incorpora uma visão muito mais ampla para facilitar o diálogo, investigar riscos e oportunidades, comparar percepções e definir prioridades para mensagens e informações. E, o fundamental de um processo social, envolver as pessoas no seu próprio desenvolvimento. A diferença real entre a comunicação e Comunicação para o Desenvolvimento reside nessa visão mais ampla, que considera as opiniões das pessoas afetadas, pelas alterações decorrentes do desenvolvimento, como participantes ativos em um processo social. E não apenas receptores de mensagens. Se o desenvolvimento é algo feito por e para as pessoas a Comunicação para o Desenvolvimento deve ser central em qualquer iniciativa de desenvolvimento desde o seu início. Pois envolve os right holders em seu próprio processo de inclusão e de crescimento.

A própria sustentabilidade dos programas e projetos de desenvolvimento ou de infraestrutura está em relação direta com a participação dos interessados. E os interessados não são somente os chamados “beneficiários”, mas também as próprias organizações de desenvolvimento que pretendam que seus programas tenham um impacto no longo prazo. E tenham êxito como sublinha Dragon-Gumúcio. Assim, a Comunicação para o Desenvolvimento é um processo social, baseado no diálogo, que utiliza uma ampla gama de ferramentas e métodos com o objetivo de partilhar conhecimento e competências. Visa construir políticas e promover debates que resultem em mudança significativa e sustentada em direção ao desenvolvimento e ao bem comum (ONU, 2006:9).

Existem aspectos diferenciadores fundamentais nesta comunicação, que listo a seguir: (i) buscar mais que a visibilidade institucional específica das relações públicas; (ii) ser um processo inclusivo e horizontal; (iii) constituir-se alternativa aos interesses políticos e comerciais hegemônicos; (iv) restituir o valor à terminologia social e rechaçar o mercantilismo dos meios massivos. Comunicação para o Desenvolvimento significa uma comunicação participativa que identifica as necessidades de informação dos interlocutores, encerra a produção das mensagens e a sua apropriação pela comunidade, igualmente de forma participativa. A reflexão sobre a Comunicação na contemporaneidade mostra e existência de uma unidade profunda entre todos os setores relacionados com a comunicação. Interligada pela comunicação a sociedade planetária atingiu a profecia feita por Wainer em 1948. E materializou o conceito da “sociedade da comunicação”.

Nela o conhecimento está ao alcance dos dedos em um mundo interconectado pelas máquinas e por meios diversos e instantâneos. A informação é irrestrita, porém o acesso é impossível a muitos grupos sociais ou muitas sociedades. A situação deriva de delimitações econômicas, políticas e/ou religiosas. Como atualmente na China e Coreia do Norte para citar alguns entre os inúmeros exemplos recentes. O domínio da tecnologia é um importante fator que poderá determinar a exclusão do acesso à comunicação e estabelecer uma lacuna entre a comunicação usual em países do norte e a realidade no setor em muitos países do sul do mundo. A consequência do cerceamento do direito à Comunicação – tecnológico ou ideológico – resulta na falta de informação que terá desdobramentos tanto para os países, como para a vida cotidiana de seus cidadãos.

Essa realidade apresenta-se de forma frequente nos países do terceiro mundo, organizados ou em processo de (re) organização, em situação de conflito latente ou de pós-conflito. Países onde organizações estão presentes trabalhando para que a transição para a estabilidade socioeconômica e cultural possa ser o menos traumática possível. Comunicação como direito: utopia ou conquista? A vitalidade social, unidade cultural e a independência de um povo, dependem de sua espontaneidade social.

Por isso sempre foi uma constante saber como reforçar essa importante característica desvinculando-a do poder político, por vezes uma força repressora e aniquiladora dessa vitalidade. A sociedade ou uma comunidade não possui apenas indivíduos. É composta de várias sociedades, grupos, círculos, agremiações, associações que se diferenciam em tipo, caráter, extensão e dinamismo. Buber (2007) afirmava que quanto maior fosse a relativa autonomia concedida às comunidades locais e regionais, maior se tornaria o espaço de desenvolvimento dos poderes sociais.

A opinião pública é um importante fator agregador dos indivíduos em sua mentalidade e influenciador nas relações mútuas entre as sociedades. Nesse contexto a comunicação assume uma posição de relevância por ser a via de acesso do individual ao social. Como tal deve se constituir em um direito do ser humano de forma ampla. As Metas do Milênio das Nações Unidas (ONU, 2000) preconizaram em seus Valores e Princípios, no capítulo referente ao Desenvolvimento e a Erradicação da Pobreza, o direito à Comunicação. Ali consta que será preciso lutar para que todos possam aproveitar os benefícios das novas tecnologias, em particular das tecnologias da informação e das comunicações. Como já está claro desde a segunda metade do século XX é preciso que se afirme o direito de todos os povos à comunicação, resgatando as recomendações do Relatório MacBride**

Esse documento revelou, há quase quarenta anos, o consenso existente em relação aos problemas importantes, as dúvidas em aberto e a exigência de uma análise permanente para a construção de uma Nova Ordem Mundial da Informação e Comunicação, inclusiva. Em suas diretrizes centrais a comissão da UNESCO previa a participação da cidadania, o fortalecimento da identidade cultural dos povos, limitação na concentração dos meios de comunicação, a integração da comunicação no desenvolvimento e a democratização da comunicação na perspectiva dos direitos humanos.

Havia a concordância da totalidade dos membros da histórica comissão de que seria fundamental a realização de reformas estruturais no setor de comunicação, pois a ordem existente mostrava-se inaceitável. A assimetria pouco mudou até hoje. Porém a comunicação por meio das redes sociais abriu a possibilidade de uma comunicação autônoma, que se difunde em ondas, superando a hegemonia dos meios de comunicação tradicionais. O que para mim, por si só, se configura uma Nova Ordem Mundial da Informação e da Comunicação. Um admirável mundo novo A sociedade sustentável apresenta-se como uma das utopias para o século XXI. Tem o objetivo de conquistar opções econômicas e tecnológicas que visem principalmente ao “desenvolvimento harmonioso das pessoas” e de suas relações com o conjunto do mundo natural, como afirmava Diegues (1992).

Na sociedade sustentável, ou sociedade de transformação, as pessoas serão “sujeito” e não “objeto” do desenvolvimento. E o desenvolvimento de uma consciência crítica permitirá ao homem, no dizer de Paulo Freire (2006), transformar a realidade, responder aos desafios do mundo e fazer história pela sua própria atividade criadora. O desenvolvimento equitativo e harmonioso com a natureza deve ser tratado como primazia na pauta internacional. E, é claro, pressupõe a ampliação em todos os níveis do conceito de democracia participativa. E que uma superação do abismo entre o norte e o sul se transmute em cooperação significativa, como pregava Sachs (1993). Coisas que a Comunicação para o Desenvolvimento busca realizar.

 

*Jornalista, Pesquisadora de Pós-doutorado da ECA/USP. Doutora em Comunicação para o Desenvolvimento pela PUC-SP. Mestre em Ação Cultural pela ECA/USP.

**Elaborado pela comissão da UNESCO presidida por Sean MacBride – jornalista, político e jurista irlandês, ganhador dos prêmios Nobel e Lênin da Paz. Seus trabalhos iniciaram em dezembro de 1977 e foram apresentados em maio de 1980. Na divulgação do Relatório One World, Many Voices, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha abandonaram a UNESCO por discordarem dos matizes ideológicos de suas recomendações. http://www.communicationofsocialchange.org/mazi-articles.php?

A importância das parcerias culturais

Por Thais Matarazzo
Jornalista, escritora e pesquisadora cultural

Pela terceira vez, em menos de dois anos, estou a voltar às terras portuguesas por motivos literários. O que representa para minha pessoa e meu trabalho motivos de grandes alegrias e realizações. E tudo aconteceu graças aos apoios culturais e o incentivo do público.

Em outubro de 2013, fui convidada – por intermédio da jornalista Eulália Moreno-, a  participar do “Congresso da Mulher Migrante”, organizado pela Dra. Manuela Aguiar e Dra. Rita Gomes, onde apresentei o meu livro “Fado no Brasil: Artistas & Memórias”. Meses depois, em agosto de 2014, estive no Porto para o lançamento da obra “A Rapaziada do Brás: seus Artistas, Memórias e Canções” (coleção Pró-TV – In House Editora), com arranjo da Código Simbólico Associação Sociocultural. Agora, em fevereiro de 2015, regresso a Lisboa para participar do “II Ciclo de Conferências Luso-Brasileiro sobre Teatro de Revista”, coordenado e moderado pelo professor Jorge Trigo.

Depois de ter aceito o convite para o ciclo de conferências, coloquei mãos às obras para conceber uma nova obra e em três meses nasceu “Brasil & Portugal: teatro, música, artistas e tal”. Para tanto, o editor Márcio Martelli, da In House, criou a Coleção Luso-Brasileira. Prontamente manifestaram seus apoios culturais a Ordem dos Músicos do Brasil – São Paulo e o projeto “Cultura no Choro”, de Cris Caner.

O “II Ciclo de Conferências Luso-Brasileiro sobre Teatro de Revista” acontecerá nos dias 7 e 21 de fevereiro de 2015, na Biblioteca de S. Lázaro, em Lisboa, a mais antiga biblioteca municipal da capital lusa. Do evento irão participar personalidades importantes. A minha intervenção será calcada no meu novo livro, a palestra se intitulará “A música ligeira brasileira e portuguesa no teatro musicado”.

Em seguida, acedendo ao novo convite da  Código Simbólico Associação Sociocultural – cuja Presidente é uma querida amiga, a socióloga Rosilda Portas -, deslocarei-me para o Porto a fim de lançar do “Brasil & Portugal: teatro, música, artistas e tal”.

Um autor sabe das dificuldades que é escrever um livro. Não é tarefa fácil, ainda mais quando se é idealista – grupo no qual me incluo. É muito trabalhoso todo o processo de produção: a pesquisa, a  redação do texto, a parte editorial, divulgação e venda da obra etc. Todas as etapas exigem muita paciência, persistência, garra, carinho e gosto pelo que se faz.

Como escritora profissional considero-me uma pessoa privilegiada. O público e os amigos brasileiros e portugueses recebem sempre muito bem todos os meus livros (já são nove!). Todo êxito colhido e as viagens que tenho feito pelo Brasil e Portugal acontecem graças aos apoios culturais. Ninguém faz nada sozinho.

Muito mais é o que nos une.

Brasil & Portugal: teatro, música, artistas e tal.

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Duas nações unidas pela mesma língua e com muitas tradições em comum, com uma troca cultural que dura já mais de cinco séculos. Este é o mote para a “Coleção Luso-Brasileira“, da editora In House, que pretende divulgar cada vez mais esses laços culturais entre o Brasil e Portugal.

Deste projeto de divulgação literária, surge o “Brasil & Portugal: teatro, música, artistas e tal“, da jornalista e escritora Thaís Matarazzo, que será apresentado no próximo dia 23 de fevereiro, na Casa Barbot, em Gaia, através de uma parceria entre a editora In House e a Código Simbólico Associação sociocultural, com o apoio da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia.

Segundo a autora, o livro “Brasil & Portugal: teatro, música, artistas e tal” tem o objetivo recuperar, registrar e preservar as memórias desta troca artística entre os dois países irmãos, focalizando o período de 1910 a 1960. “Os desenvolvimentos dos meios de comunicação e os adventos do disco, cinema, rádio, televisão, internet, entre outros fatores, contribuíram para a difusão das artes. No tocante à música popular, o teatro de revista e o rádio foram as ferramentas mais importantes para sua popularização, até meados do século XX, envolvendo um grande números de artistas, compositores, autores e empresários.“, ressalva Thaís Matarazzo.

O livro, pela extensão e riqueza do tema, está dividido em duas partes: artistas brasileiros e artistas portugueses e traz dois prefácios: do escritor e professor brasileiro José Américo Lisboa Júnior e do autor e historiador português Jorge Trigo. O texto da contracapa é assinado pelo jornalista Jefferson Silveira e o texto da orelha é do radialista Walter Manna.

"A fim de agradar o maior número possível de espectadores, as companhias somaram aos seus repertórios de músicas portuguesas diversas canções brasileiras. Também ocorreu que muitos artistas acabaram por fixar residência entre nós, vislumbrando maiores chances de trabalho, passando a integrar as nascentes companhias do teatro brasileiro. O fenômeno, em menor quantidade, aconteceu com artistas brasileiros que cruzaram a linha do Equador rumo ao continente europeu, tendo Portugal como porto principal."

Sobre a autora
Jornalista, escritora e pesquisadora da história do rádio e da música popular brasileira, Thaís Matarazzo apresenta semanalmente a “Agenda Cultural” do programa “Solo Tango”, na Rádio Trianon AM/SP. É também autora dos livros “Irene Coelho, uma brasileira de coração português” (2011), “A Música Popular no Rádio Paulista, 1928-1960” (2013), “A Dinastia do Rádio Paulista” (2013) – parceria com Valdir Comegno, “Fado no Brasil: Artistas & Memórias” (2013) – lançado em Portugal, “Artistas Negros da Música Popular e do Rádio” (2014); “A Rapaziada do Brás: seus Artistas, Memórias” (2014) e “Canções” e “Vozes do Brasil, trajetórias de grandes artistas e comunicadores” (2014), pertencentes a Coleção Pró-TV, Editora In House.

Somos todas Simone

Por Ludmila Noronha

Simone de Beauvoir sempre foi uma personagem inspiradora para mim. Digo personagem porque já me inspirava sem que eu soubesse quase nada a respeito de sua trajetória real. Me inspirava como mulher. Eu tenho essa tendência estranha, desde sempre, de me interessar por pessoas. Não por tipos. Não por estilos. Por pessoas. Pelo todo que identifica cada um. E acho que essa é uma definição bem prática: admiro pessoas que me inspiram. E ponto final.
Pois bem. A inspiração gerada pelo todo da Simone é bem fácil de ser compreendida. É uma imagem feminina que sempre falou muito de perto ao meu lado mais forte. Me lembro de, no início da adolescência, enquanto todas as minhas amigas sonhavam com maridos, casamentos e uma vida que dependia de um contexto para se realizar, sonhar comigo mesma. Mulher, adulta, independente, segura, dona de mim.
Nenhuma aversão ao amor. Aliás, sou uma apaixonada convicta pela possibilidade de me apaixonar. E de amar. Em profundidade e plenitude. Talvez por ter essa porção racional tão gritante, por ter essa dificuldade quase doentia de me permitir enganos, me sinto plenamente viva quando existe mais alguém além de mim mesma alimentando minha compulsão por pensar.
Pois bem: recebi, como presente de Natal de uma amiga muito querida, o livro “Beauvoir apaixonada” – um romance da escritora, historiadora e jornalista francesa Irène Frain. Minha primeira constatação: raras vezes me vi diante de uma construção tão delicada de uma personagem feminina.
A própria autora explica, no prefácio da obra, tratar-se de um romance “inspirado em fatos reais”. Eu arriscaria dizer que trata-se de um romance muito biográfico. Ao longo de todo o livro fica evidente a preocupação com a clara sequência dos fatos, obedecendo a um trabalho minucioso de análise das cartas, obras e material biográfico dos envolvidos.
Apesar de ancorada na história real, respeitando uma cronologia precisa, trata-se de uma obra de ficção. Como Irène Frain define, as lacunas deixadas pelo material de pesquisa foram preenchidas com sua versão dessa história de amor. Ainda assim, em contato com o texto, não consegui deixar de pensar em quantas vezes Simone de Beauvoir precisou se reconstruir como mulher.
O livro aborda a história de amor vivida por Simone e o escritor americano Nelson Algren – apontado por ela mesma como a única paixão de sua vida. A longa trajetória experienciada ao lado de Sartre, sabemos, envolvia uns tantos outros territórios emocionais e afetivos. E vale um texto próprio, certamente.
Mas, aqui, é apenas Simone. A história com Sartre, a intelectualidade marcada pela inteligência aguda e perspicaz, a segurança e a força com que sempre se armou cedem o palco das atenções e o lugar de destaque a uma mulher. Irène Frain constrói lindamente o conflito que permeia Simone durante seu romance com Nelson – esse conflito a que somos, todas nós, mulheres pós-modernas, expostas diante de grandes paixões: nós mesmas no controle de tudo ou nós e o outro sem controle algum.
Texto intenso, forte e, ao mesmo tempo, cheio da doçura necessária para apresentar uma personagem que se permite ter corpo, para além do intelecto. Que tem crises emocionais quase adolescentes diante da possibilidade da perda de um amor, mas se mantém intacta aos olhos do universo que construiu em torno de si.
E a empreitada de se construir tem um preço. Sabemos bem que nem todos estão dispostos a pagar. Simone de Beauvoir esteve. Em todas as proporções em que é possível afirmar isso. A nós, resta a busca por uma linha desmedida entre os dois polos do grande conflito; talvez o que busquemos seja: nós e o outro, sem controle algum, mas sem perder de vista aquilo que somos.
Uma passagem do livro aborda o romance em fase de desencontro, momento em que a paixão está perdendo sua intensidade e resume tão incrivelmente bem o limiar de todas as dores humanas em situações como essa:
“De longe em longe, por sobre nossas noites vazias ou inquietas, surge um cometa. Ele aponta a cabeça no horizonte e em seguida se instala num cantinho do céu, onde, a cada noite, desdobra sua cintilante cauda de estrelas. É a eternidade a nos sorrir. Fazendo-nos subitamente mergulhar em sua graça, em vez de nos esmagar de pavor. Tal como na infância, o mundo nos parece uma extraordinária promessa. E a vida, uma indefinida sequência de deslumbramentos. Depois, o cometa se vai e o mundo se desencanta”.
Pelas noites vazias ou inquietas. Pelas eternidades que nos sorriem. Pelas sequências de deslumbramentos. Pelos cometas que surgem. E pelos que se vão. Por tudo isso: somos todas Simone.

FRAIN, Irène. Beauvoir apaixonada. Tradução de Marisa Rossetto. Campinas: Verus, 2013.

Dá jeito não pensar

Por Fernando Rola

Dizem-nos (diz a TV) que nunca a sociedade foi tão violenta como agora. No café, olhando a primeira página de um jornal que fala, pela quarta edição consecutiva, de um crime passional ocorrido há uma semana, alguém comenta: “já nem em casa se pode estar sossegado”…

Dizem-nos (diz a TV) que a greve do sector público marcada para a semana que vem dará um prejuízo de milhões. No café, olhando a primeira página de um jornal que diz que a despesa do sector público ultrapassa uns quantos por cento do PIB, alguém comenta: “andamos nós a alimentar estes chulos”…
Dizem-nos (diz a TV) que aumentou o número de carros da alta cilindrada vendidos, abrandando a venda dos mais baratos. No café, olhando a primeira página do jornal que diz que aumentou o número de famílias com necessidade de recorrer a instituições de solidariedade social, alguém comenta: “gastam mais do que o que podem”…
A lista poderia prolongar-se, em sentido único, assim como os comentários. Mas até são fáceis de contrariar.
No primeiro caso, nem sequer é preciso recorrer à estatística: a simples experiência de cada dirá que nunca a sociedade portuguesa foi tão pacífica como agora; no segundo, facilmente se conclui que as notícias omitem ou desvalorizam as razões da realização das greves; no terceiro, é rapidamente aceite que a crise ataca os fracos, os muitos fracos e os desprevenidos, nunca os mais fortes. E estes é que compram carros de alta cilindrada e nunca recorrem à solidariedade (quando muito, roubam-na legalmente ao Estado).
O problema é que para chegar a estas conclusões é preciso pensar. Um pouco que seja. Mas pensar. O que pode dar chatices, mostrar coisas que não dá jeito ver; pode até, imagine-se, colocar uma pessoa na posição de contrariar a ideologia vigente. O que tem custos, alguns bem agradáveis. O melhor mesmo é deixar como está…

Diz quem sabe
“As ações de cada um realmente importam, de uma maneira que não se viu nos últimos 500 anos” (Immanuel Wallerstein)