Ligeiramente Alienígena

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O som da letra jota

“O que eu mais quero é te dar um beijo / E o seu corpo acariciar.” O Grupo Revelação não está entre as minhas bandas favoritas, mas houve sempre qualquer coisa nesta música que a torna irresistível. “Você bem sabe que eu te desejo”. Mas o quê?
“Se você jurar / Eu posso até te acostumar”. Foi ao ouvir o Marcelo Camelo – esse, sim, perto do coração – que me apercebi do padrão.
“Ai ai ai, moreno / Desse jeito você me ganha”. Beijo. Desejo. Jeito. Jura. Não tem tanto que ver com a subjetividade de cada uma destas palavras, mas a carga que lhes confere o som tão íntimo da letra jota. Daqueles que se sussurram ao ouvido e provocam arrepios por todo o corpo. É uma sorte; haveria melhores palavras para sussurrar ao ouvido?
É engraçado não funcionar, por exemplo, com “Jura / Que não vais ter uma aventura”. Desculpa, Rui, mas é mesmo assim. Falta-lhe o sotaque adocicado, o calor que se sente até na forma como nos falam, íntimo, pessoal. Como o de Djavan, Gil, Jorge.
Beijo. Desejo. Jeito. Jura.
Abençoada língua brasileira.
(Playlist ” O som da letra J“)

O meu amigo Rui

Não teria sido um dia tão bom se não fosse o dia da despedida da Andreia. Não estaria lá a dona Laura, não estaria a tocar Zeca Afonso e, acima de tudo, não estaria lá o meu amigo Rui.
Ainda não éramos amigos naquela manhã, quando entrei na Unicepe, com a ousadia tímida de quem tem uma missão mas não sabe como a cumprir.
“Tem companhia para almoçar?” Foi assim que começamos uma longa viagem pelas viagens do Rui.
“Quem diria hoje de manhã que eu faria uma amiga”, diz-me com toda a naturalidade de quem não se importa com a banalização da palavra “amigo”, simples assim, de coração.
O meu amigo Rui (acho que por essa altura já éramos amigos) insistiu que eu experimentasse uma boa sopa portuguesa e, no prato principal, ensinou-me a comer um bom peixe – é preciso sentir as espinhas com a língua e tirá-las da boca, uma a uma, empurrando-as entredentes.
Falamos da Unicepe, claro, mas cada parte da história entrelaçava-se com as histórias dos seus personagens – os seus amigos.
Juntos, viajamos para Beijing, onde o Rui esteve três vezes. Navegamos também para o Chile, onde ficou hospedado – com uma das maiores atrizes chilenas e os seus irmãos – na casa ao lado da de Pablo Neruda, na Isla Negra. Numa das suas viagens pelo país, conheceu também uma descendente do pai da revolução chilena.
O Rui falou-me de vários amigos, mas a história que mais me cativou foi a da Gabriela, de Maceió, que fez uma ponte literária entre Angola e o Brasil.
“Conheces?” Nunca me senti tão desprovida de cultura como nesse almoço, mas não faz mal, porque o Rui já era meu amigo e os amigos não nos julgam.
Entrar na Unicepe naquele fim de manhã foi o melhor acaso de sempre, o início de algo muito bom, muito grande.
E que menos podia ser esta viagem que começou naquele lugar de tantas outras viagens, tantas aventuras, tantos amigos?

Raízes

Esta semana despedi-me do meu irmão mais novo, que foi estudar para Londres. Há dois anos e meio, foi a despedida do nosso irmão mais velho, que decidiu ir para lá trabalhar. Entretanto, em junho, completaram-se três anos desde que os meus pais voltaram para o Brasil.

Porque é que não vais com eles? Sei lá. E porque não ficar?

Criei raízes. Não sei se será mais pelo amor, pelos amigos ou pelo trabalho, mas são fortes e difíceis de arrancar. Sinto quase a dor do puxão quando envio alguma candidatura para fora daqui, e não esquecer que a dor é o alerta do corpo de que algo está mal. E realmente, mesmo que signifique continuar longe da família, algo parece estar mal quando penso numa vida fora daqui.

Quando me for – se um dia decidir, de facto, ir – não vai haver contagem dos anos que aqui vivi, porque não há números que traduzam “desde que me dou por gente”. Apesar de me sentir 100% brasileira, sou também 100% do Porto (no coração as leis da matemática são outras). Não é apenas a cidade ou o país onde construí a minha vida. Apesar das minhas mil queixas sobre o jeitinho tuga de ser, o facto é que tudo em mim, desde os palavrões com sotaque ou simplesmente ao pensar com uma mão no coração, não me deixa mentir: já sou demasiado portuguesa, sou mesmo daqui.

Perguntam-me novamente se tenho a certeza de que quero ficar. Caramba, quem tem certeza de tudo nesta vida?


Tentando votar

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No dia 5 de outubro, vou votar pela primeira vez em eleições brasileiras. Não vou dizer tidem que seno vai o meu voto – que já decidi -, mas permitam-me partilhar o processo de decisão de uma neurótica que, do outro lado do oceano, nunca viveu plenamente o ambiente social e político do Brasil.

O sistema partidário brasileiro é caótico para quem só espreita de fora. Apesar da sua dimensão ser relativamente proporcional em relação ao português, as mudanças de filiações e alianças e criação de novos partidos – que facilmente conseguem uma representação expressiva -, somadas às informações que parecem surreais sobre a impunidade da corrupção (quantos políticos não sobem ainda mais alto depois dos escândalos e até de cassações?), fazem com que tenha que fazer um esforço muito grande para conseguir acompanhar quem-é-quem e quem-fez-o-quê e quem-é-corrupto-mas-ainda-ainda-à-solta. Há cerca de um ano, quando fui contratada por um site de notícias do Brasil, imprimi este mapa da “Guerra dos Tronos” da política brasileira, que já está um pouco desatualizado mas vale a pena conferir.

Também vou acompanhando o que se diz no Twitter, berço de todos os memes e das melhores piadas. Mas, porque o assunto é sério, criei esta lista para uma cobertura cabal. Como é impossível acompanhar todas as notícias dos 11 candidatos, aproveito ainda a filtragem dos blogs brasileiros, à esquerda e à direita, tentando fintar os viés de cada um.

Por fim, é preciso conferir o que se diz. O blog Preto no Branco, do jornal Globo, e a série Truco!, da Agência Pública, fazem um trabalho porreiro: pescam afirmações dos candidatos e verificam. A Pública também faz uma análise dos programas eleitorais, além de um apanhado das promessas eleitorais que vale mesmo a pena seguir.

Se com tudo isto eu tenho a certeza que tomei a decisão certa? Claro que não. Mas vou tentando. Quem quiser tentar comigo, pode acompanhar o meu percurso até o dia 5 de outubro em campanhaeleitoral.tumblr.com e dar o seu feedback.

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